A possível entrada de Manoel Gomes na política, lançada pelo Avante para disputar uma vaga de deputado federal por São Paulo, escancara um problema que vai além de uma candidatura isolada. Trata-se de um reflexo direto do momento que a sociedade vive. Não se questiona aqui a origem, a trajetória ou o direito de qualquer cidadão disputar um cargo público. A democracia permite e deve permitir isso. O ponto central é outro: o nível de preparo e consciência sobre a função que se pretende exercer.
Em entrevista recente, ao ser questionado sobre propostas, Manoel Gomes afirmou que sua equipe ainda iria definir. Ao ser perguntado sobre o papel de um deputado federal, disse que descobriria quando chegasse ao cargo. As declarações, por si só, revelam um despreparo preocupante para uma função que exige responsabilidade direta sobre a elaboração de leis e decisões que impactam milhões de brasileiros.
O Congresso Nacional não é um espaço de aprendizado básico sobre o que fazer. É, ou deveria ser, um ambiente de formulação, debate qualificado e tomada de decisões complexas. Não se trata de exigir diplomas ou elitizar a política, o que seria, de fato, um retrocesso. Há inúmeras pessoas capacitadas, mesmo sem formação acadêmica formal, que exercem funções públicas com excelência.
Mas há uma diferença clara entre não ter diploma e não ter noção mínima da função que se pretende ocupar A candidatura de Manoel Gomes evidencia uma distorção: a transformação da política em extensão do entretenimento. Popularidade, engajamento e alcance digital passam a pesar mais do que preparo, conhecimento e compromisso com o interesse público.
E isso não é apenas responsabilidade de quem se lança candidato. É também reflexo de uma sociedade que, muitas vezes, valoriza mais a fama do que a capacidade Se cargos legislativos passam a ser tratados como experiências a serem descobertas no caminho, o risco não é apenas individual. É coletivo. Afinal, é do Congresso que saem as leis que regem o país.
No fim, a questão não é Manoel Gomes. Ele é apenas o sintoma. O problema está em um sistema que permite, incentiva e, em certa medida, normaliza esse tipo de cenário



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